17. Ou sobre o que nunca vai passar.
quinta-feira, novembro 17, 2011
16:04
Eu não sei direito por onde começar. Hoje o dia é cheio de tanta coisa. De desejos, lembranças, de saudade... Há dois anos, perdi uma amiga muito especial, uma das pessoas das quais me orgulho de ter conhecido, compartilhado experiências, músicas, risos, desesperos. E não dá pra explicar com palavras o quanto é difícil perder alguém verdadeiramente especial. Não dá... Eu venho tentando fazer isso há algum tempo, mas não consigo. Dá pra descrever uma saudade que não tem fim? Meio que como um arrependimento, sabe? Ou uma dúvida misturada com tristeza por não saber qual a razão do destino ter se encaminhado daquela forma. Não é drama. Passa tão longe disso...
Pensei, pensei... A morte vai chegar pra todo mundo. É a parada obrigatória. E na convivência maluca e apertada dos dias, as pessoas simplesmente esquecem. Deixamos de tolerar coisas pequenas, motivamos o que não precisa de atenção, adquirimos uma postura indiferente pra o que, no final das contas, é o essencial. É tudo tão rápido. Aconteceu com minha amiga numa manhã de terça, eu sofri um acidente numa tarde belíssima de sol, meu tio quase morreu atropelado voltando do trabalho com os colegas. Alguém pressentiu essas coisas? Não. Não dá pra fazer isso. Não é balela o discurso do "ame e perdoe sempre"... Eu sei que não dá pra viver como se não houvesse amanhã, mas hoje pode ser o último dia. Semana que vem pode ser a última semana. E o abraço que não foi dado? A carta não escrita? O sentimento que merecia ser passado a limpo? A relação que merecia ser repensada? Ficou pra nunca mais. Não quero tornar esse texto mórbido, nem fazer reflexões fúnebres, mas é que... São muitas as besteiras que cometemos. Todo santo dia. Por conta de quê mesmo?
(...)
E diferente do ano passado, quando resolvi que iria cumprir todo aquele ritual de levar as flores, orar, prestar uma homenagem convencional, eu não chorei. Não senti vontade de derramar uma lágrima. Senti vontade de sorrir... De lembrar e sorrir. E cantar. Fui envolvido por uma paz, pelo vento que parecia me abraçar e pela ternura que era transmitida em cada olhar paciente, cada elogio a minha letra que ela dizia ser linda, em casa observação descontraída na aula de geometria... Fui envolvido pela saudade. E não foi ruim. Porque recordações nunca são apenas isso. E sentimentos sempre se deslocam, né? Antes era dor, uma sensação frustrante de impotência diante daquele acidente, raiva, inconformismo... Hoje é saudade. Que preenche e me rouba... Me leva pra aula de química cantarolando Marisa Monte, pra prova da gincana em que ficamos confinados numa sala por dois dias e meio e foi uma das situações mais divertidas de todas, pra os abraços bem apertados no iníciozinho da manhã, pra risada incontrolável, pra última conversa no ônibus, em que ela me disse que TUDO DARIA CERTO, exatamente com essas palavras. E não é que eu acreditei? Acredito. Acredito. E não quero perder isso... Nunca. Não posso esquecer.
E não há como esquecer... Porque hoje também é aniversário da pessoa que eu mais amo no planeta Terra. Ter perdido uma amiga no dia do aniversário da minha mãe foi uma das coisas mais complicadas que enfrentei. Mas talvez essa data seja pra lembrar que existe em mim um amor e uma saudade que são eternos, que brilham, me mostram que a vida é sempre mais do que eu posso esperar. Minha mãe é uma mulher fantástica, se eu tivesse a oportunidade de escolher quantas vezes fosse... Seria sempre a mesma escolha, a de ser filho dela. A de ter a sorte incomensurável de compartilhar toda minha trajetória com ela. É uma relação que não cabe em texto, que não cabe em música, porque é um carinho que ainda não cabe em mim. Resplandece...
Por isso eu agradeço... Agradeço pela oportunidade de sentir tanta coisa boa nesse dia. Por ter a mãe fantástica que eu tenho. Por ter feito parte da vida de Letícia, mesmo que por pouco tempo. Por ter aqui, em mim, um amor e uma saudade que se confundem e que nunca vão passar. Por ser dono de lembranças... Únicas. Sou grato pelo dia dezessete, que sempre me faz refletir e me incita a ser um homem melhor.
"Every day may not be good... But there's something good in every day."
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