"E repelir como inútil tudo o que não contribuísse para a alegria imediata do coração, porque tinha um temperamento mais sentimental que artístico, procurando emoções e não paisagens..."

Uma reflexão sobre imagens, teorias da identidade ou o texto mais fora de contexto desse blog.

quarta-feira, julho 04, 2012 23:24

Tava lendo esses dias uma história de que a gente fornece as imagens e identidades que viabilizam a nossa interação e as narrativas que a gente mesmo quer construir (não necessariamente as que de fato acontecem, as que a gente QUER construir - vale destacar). E aí, sei lá... Fui pensar sobre o assunto porque esse negócio da imagem que a gente negocia pro resto do mundo é bem pertinente nos meus argumentos (a razão pela qual eu - por um sopro do destino - não fui parar no ramo das letras e da comunicação. Quem sabe um dia...). Ontem me irritei com um comentário que superdestacava o meu traço dramático. Sou mesmo. Já disse isso aqui no blog. Já demonstrei isso pra todos aqueles que fazem parte do meu círculo social. Mas até que ponto isso permite que as pessoas me congelem dessa forma? Com ESSA forma? Se essa é a imagem que eu passo, discordo um pouco da tese lá do início do texto, porque ela não viabiliza nada que me interessa. 

E sobre esse negócio de narratização da própria vida, uma observação: o fato dela se basear em devaneios, ficções, imaginações não tira dela sua eficácia. Acho que isso explica o meu ponto de vista. O ponto de vista que as nossas essências - se é que elas existem mesmo - são produto da nossa própria cognição e isso reflete diretamente na nossa rotina. A imagem que a gente fornece interfere objetivamente na construção da nossa personalidade, não o contrário. E aí surge o questionamento, a identidade que é percebida corresponde com aquela que a gente quer? Ou com aquela que a gente acredita possuir? Será que o comentário que superdestacava o meu eu dramático representava aquilo que eu não quero acreditar que sou? Essa parafernalha psciológica chamada personalidade não nascia com a gente?

E claro, é muito mais fácil conviver com o que a gente pode classificar, apontar, rotular, porque isso antecipa as nossas atitudes e ninguém gosta de desarticulação. E a gente mesmo acaba se classificando, rotulando, apontando, pra tentar definir uma ordem lógica de atitudes e sentimentos. Por mais espontâneos que sentimentos possam ser. Eu invisto em determinados pontos daquilo que eu acredito que sou... E porque? Por que essa é a imagem que eu quero negociar. (!!!) O problema está é na interpretação alheia. É negociação, é via de mão dupla. O que parece normal pra mim pode parecer acentuado ou atenuado pra outra pessoa. Estamos nesse mundo para fazer leituras (fomos, somos e seremos obrigados a fazer isso para sobreviver) - de toda e qualquer coisa. Até mesmo quem é da área das engenharias ou das ciências exatas. E é por isso que é difícil preencher qualquer formulário que contenha a pergunta, "quem você é?" É um risco selecionar as essências que são mostradas. É um desafio descobrir quais são as próprias essências. É louco o modo como podem subverter todas as suas opiniões, como todos nós subvertemos opiniões. O tempo todo. É tudo uma questão de leitura... 


(Reli e me perguntei de onde esse texto (louco e confuso) surgiu ou começou... É que eu ando mesmo pensando nessas teorias da identidade, subjetivade... Porque o modo como suas características são transmitidas podem ser bem distintas das crenças que você possui sobre si mesmo. E nesse mundo de tantas tribos - com tantos perfis a serem definidos, preenchidos, escritos e selecionados - o modo como queremos ser identificados acaba se chocando com a nossa própria história, com aquilo que nos levou para onde estamos... E daí é que surgimos! Dessa insterseção entre história a ficção... Na sua vida, qual sobrepõe qual?)

(Em tempo: Lembro de muitas coisas. De muitos momentos. Da escolha da carreira. Do relacionamento que deu errado porque as imagens confidenciadas eram todas incompletas e covardes. Da dúvida que me sufocava nas madrugadas. Da opinião que me deram. Da resposta seca e quase silenciosa. Do padrão que eu tenho sustentado e que brigo para manter. Da acusação no estilo você-tem-que-se-valorizar.)

(Em tempo nº 2: Ainda terei nessa vida a oportunidade estudar melhor essas coisas.)