"E repelir como inútil tudo o que não contribuísse para a alegria imediata do coração, porque tinha um temperamento mais sentimental que artístico, procurando emoções e não paisagens..."

Namorada Ideal.

domingo, julho 18, 2010 23:20

E aí que em uma dessas viagens, resolvi montar a minha namorada imaginária. Criei uma mulher super, mas ficou lindo meu texto. Uma poesia.

MINHA NAMORADA IMAGINÁRIA.


A minha namorada imaginária não tem nacionalidade, etnia, cor e nem credo definido. Pode não ser boa com as palavras, mas é bom com os sentimentos. Talvez seja um pouco mais velha do que eu, um pouco mais nova ou tem exatamente a mesma idade, o que interessa mesmo é que seja madura o suficiente para ser Mulher, com M maiúsculo. Não alimenta vícios, desses autodestrutivos. É realizada consigo mesma, dona de si, consegue domar o seu destino. Autêntica, ela sabe as dores e as delícias de ser o que é. Viveu os relacionamentos anteriores intensamente o bastante, de modo a carregar consigo apenas aquilo que pode acrescentar em relações futuras, ela tem que ser inteligente para conseguir isso. Adora Literatura, do Humanismo ao Pós-Modernismo. Também gosta de História e de Matemática. Gosta de novelas, não precisa ser apaixonada, basta ter paciência para assistir aos folhetins ao meu lado, bem juntinhos. Ela pode morar em casa, apartamento, república, vila, flat ou pensionato, no fim das contas, tem que morar mesmo é no meu coração.

Ela tem um sorriso encantador e um brilho no olhar, cabelos que modelam o seu rosto, bem macio. Tem cheiro de fruta, pele de pêssego e cor de jambo. Um abraço aconchegante. Um beijo apaixonante. Beleza estonteante, somente para mim. Sabe vestir a alma com paixão e o corpo com uma sensualidade comportada, completamente desconcertante. Minha namorada imaginária pinta a vida de vermelho, para combinar com o meu laranja. Combinaremos em tantas coisas... E saberemos reconhecer, juntos, os nossos desacertos e fazer dos tropeços, pontes de crescimento pessoal, brindadas com champanhe e com as mais belas noites de amor. E acordaremos no dia seguinte com a maior cara de sono, mas acharemos lindo, por que estamos juntos.

Temos planos em comum, planos de carreira, de casamento, de lua-de-mel e de família. Sonha, assim como eu, em fazer uma viagem pelo Litoral Brasileiro, de norte a sul. E depois, um passeio pela Europa, em países escolhidos a dedo. Podemos também visitar a África e a Austrália, teremos tempo para tudo. Trocaremos além de beijos, experiências, lições de cumplicidade, fraternidade e solidariedade. Ela quer viajar comigo, casar comigo, ter filhos comigo, dividir tudo comigo. Inventaremos o nosso amor. Me atrairá com a sua convicção e me aquecerá, o corpo e a alma, nas tardes de inverno.

Discutiremos a relação, entraremos em crise, brigaremos por uma banalidade, faremos as pazes, brigaremos por outra futilidade e faremos as pazes de novo. Sentiremos ciúmes, faremos charme e teremos problemas, muitos... Mas depois das discussões, nós recomeçaremos sempre, um disfarçando que o outro tem razão, por que nos preocuparemos com o relacionamento, e na medida do possível, daremos o braço a torcer. Teremos nossas imperfeições. Não ligamos para opiniões alheias, exceto das pessoas que são relevantes. Saberemos ouvir um ao outro, saberemos fingir que ouvimos um ao outro na hora certa, saberemos ouvir as nossas músicas e assistir aos nossos filmes. Também saberemos calar, da nossa maneira. Daremos tempo ao tempo, preservaremos as nossas particularidades. Ela terá tempo para a cervejinha com as amigas na quinta, eu para o vôlei com a rapaziada na sexta [sim, eu aprenderei a jogar vôlei], mas o sábado é nosso, todo nosso. Seremos democráticos.

A nossa mão encaixa uma na outra, os nossos passos de dança combinam-se, como se fosse ensaiado. Comemoraremos as datas especiais, no meu apartamento, na casa dela, no restaurante mais caro da cidade, em um motel, em qualquer lugar. Ela aceita as minhas manias e eu aceito as manias dela, poderemos odiar manias, mas saberemos tolerá-las, da mesma maneira que toleraremos as nossas respectivas sogras. Tomaremos banhos de mar, banhos de cachoeira, banhos de chuva, banhos nos nossos chuveiros, banhos de perfume... E lavaremos a alma.

Ela é sensata, é racional, é emotiva, é alto-astral, é educada, é leal e é fiel. É multifacetada. Pode até ser temperamental, inconstante, exagerada e falar demais. É delicada e é independente [convenhamos que não há nada mais elegante]. Sabe fazer como ninguém carinho na nuca, massagem nos ombros e afagos no pescoço. Somos melhores juntos, nos completamos e nos satisfazemos assim. Minha companheira imaginária tem TPM de vez em quando, e amanhece mal-humorada de vez em nunca.

Ela sabe pedir cheia de manha e eu sei me entregar cheio de graça. Somos leves, não somos levianos. Conseguiremos viver as nossas aventuras inesperadas de maneira plena, sem preocupações, mesmo que eu tenha uma audiência e ela tenha uma aula no dia seguinte. Apesar disso, seremos responsáveis. Ela me protegerá dos meus medos, estará do meu lado nas perdas, nos dissabores e comemorará as minhas vitórias junto comigo, daremos a volta por cima. Estaremos sintonizados. Sentiremos prazer em cada encontro, em cada conversa, em cada carinho trocado, em cada transa. Seremos apenas um. Flertaremos nas noites de luar. Nos encantaremos pelas coisas mais simples. Nos divertiremos.

Quando a gente se encontrar e toda a imaginação se tornar realidade, nos perceberemos na maior das multidões. Ouviremos os sinos tocarem, sentiremos o coração acelerar e aquele arrepio na espinha, bem romântico. E será tão bom. Será uma sorte, uma arte, um devaneio. Avassalador. Será outono, será desprendimento, será amor-total. Será o ideal... Será amor.