"E repelir como inútil tudo o que não contribuísse para a alegria imediata do coração, porque tinha um temperamento mais sentimental que artístico, procurando emoções e não paisagens..."

Andar pra frente nunca foi tão difícil.

sexta-feira, agosto 06, 2010 18:04

E aí que eu tive um acidente e acidentes não são legais. Eu estava na carona da moto e nós batemos em um carro, em um desses cruzamentos. Passei por todo aquele processo de soro, hospital, remédios, curativos, cirurgia, médicos, enfermeiros, cadeira de rodas, muletas, tudo isso. Minha perna ficou machucada e ainda estou me recuperando, tudo há de dar certo.

Estranho. Depois de um acontecimento desses a gente muda o olhar pra muita coisa... Eu estava indo pra rodoviária, em um dia normal - um dia lindo por sinal - tudo havia acontecido na mais perfeita ordem e aí de repente, um acidente. Assim, do nada. A gente sempre acha que vai ter um pressentimento, um aviso, uma dessas paranormalidades dos filmes e das novelas, mas a vida não traz sinais, setas e placas luminosas antes de qualquer fato relevante. Traz? Não traz.

E eu descobri muitas coisas... Descobri que eu sou forte pra dor, que meus pais são muitos mais fodas do que eu poderia supor e que eu sou (muito) mais calmo do que imaginava. Sempre alimentei egoísmos bobos, ciúmes infantis, muita fultilidade. Me acostumei ao estresse por coisas pequenas, irrelevâncias. Talvez (e muito provavelmente) a vida seja mais do que isso. Corrijo: ela é muito mais do que isso.

E de toda a experiência, uma das melhores coisas foi a possibilidade de conhecer pessoas diferentes. Cada pessoa é um universo, já devo ter dito isso em algum outro texto. Foram tantas enfermeiras, médicos, funcionários do hospital, um colega de quarto - e a família dele... Tanta gente que eu conheci entre uma sala de espera e outra, entre um comprimido e outro... E cada uma com uma história, com uma lição pra ensinar. Eu aprendi muito. Cresci muito nesses último dias. E nem precisei andar.

Na última consulta de retorno ao médico que realizou a minha cirurgia, eu conheci um senhor que já deveria estar na casa dos setenta. Começamos a conversar, papo vai e papo vem, ele me disse. - "Essas coisas acontecem pra gente parar um pouquinho e olhar pra dentro da gente mesmo, se solidarizar, se humanizar. E é ter paciência, é esperar, é acreditar em Deus. Sempre. Por que tudo acontece pela vontade Dele, uma folha só cai de uma árvore se Ele quiser. Não reclame de nada." Preciso mesmo dizer que as palavras desse cara me fizeram refletir?

(...)

Em situações como essas que eu percebo o quanto minha família é maravilhosa, o quanto que meus amigos são verdadeiros. E me orgulho, me sinto iluminado, abençoado. Fico tão feliz, me sinto tão sortudo... Agradeço a Deus todos os dias por tanto amor, tanto cuidado, tanto carinho, por que no final das contas é isso que se leva da vida.

Tem uma cicatriz aqui no meu joelho, outra no braco... Mas as marcas vão muito além dessas que ficaram na pele. Muito mais.