"E repelir como inútil tudo o que não contribuísse para a alegria imediata do coração, porque tinha um temperamento mais sentimental que artístico, procurando emoções e não paisagens..."

Do que eu sinto (falta)

sexta-feira, maio 04, 2012 23:45

Tem dias que a gente acorda com a sensação de que todo o espaço está preenchido por ausências... E nesses dias me dá é vontade de dizer...

Que bate uma saudade da casa de madeira, que parecia que ia cair quando chovia ou ventava muito forte. Da antena que era daquelas espinha de peixe. Dos meus tios todos reunidos fazendo todas as minhas manias. Meus tios são meus heróis. Da minha avó que era (e ainda é) a pessoa mais doce e rabugenta que eu conheço. Do meu avôzinho que diz que me ama muito sem nem lembrar mais do meu nome. Saudade da pipoca, da gelatina, do brigadeiro, das pedrinhas no quintal, da pia que virava uma piscina ou o mar inteiro se a minha imaginação quisesse.

Saudade do cheiro de giz de cera e do quadro verde escuro. Da lancheira azul e a da mochila colorida. Das pastilhas de hortelã e do sorvete de maria-mole.

Que eu sinto falta dos pés descalços, da chuva, da rua sem asfalto. Da gude que eu não sabia jogar, da bola sempre furada, de todas as brincadeiras (re)inventadas. Do chiclete, da bala, do pirulito, do copo de água gelada que mais parecia o néctar dos deuses depois de correr todo o bairro sem nenhum outro motivo além de... Correr. Sinto saudade da bicicleta. E das rodinhas. E do dia que eu aprendi a andar sem elas. 

Sinto saudade das férias de junho de mil novecentos e noventa e alguma coisa, em que a fábrica de chocolates era mais fantástica que a do filme. Em que a fonte do shopping parecia o lugar mais bonito do mundo e subir a escada rolante era muito mais divertido do que eu imaginava que fosse. Saudade de todas as descobertas de uma cidade maior. De minha madrinha igual uma boba querendo trazer uma novidade a cada santo dia. E ela trazia.

Saudade da Dona Benta, minha avó e amiga de coração que era muito, mas muito mais incrível que a personagem homônima do Monteiro Lobato. Foi uma das pessoas mais extraordinárias que eu conheci. Sempre será. Sempre, absolutamente. Saudade das tardes na casa da outra avó, do quintal, das árvores, dos bichos, dos biscoitos, do bolo, da ternura da proteção. 

Saudade de quando tudo era muito simples. De quando eu dormia no sofá de propósito pra que meu pai me levasse pra cama no colo. De quando minha Tia Luciana dividia o quarto comigo, apesar da nossa enorme e descontrolada bagunça (Ainda somos bagunceiros, inclusive. Agora em quartos diferentes.). Da minha mãe com todas as canetas coloridas, os cadernos novos e de todas as recomendações de cuidado. Saudade de quando minha vida não era preocupação minha.

Saudade... Sem final...




Aí você começa a crescer. Aí você começa a se preocupar. Aí você se enche de receios. Aí você aprende a pensar e descobre que pensar demais é não saber. Aí tudo que era tão rotineiro passa a ser... Passado. E é tão bonito... E é tão precioso lembrar. E é digno de agradecimento, a cada dia que nasce.