"E repelir como inútil tudo o que não contribuísse para a alegria imediata do coração, porque tinha um temperamento mais sentimental que artístico, procurando emoções e não paisagens..."

Ideal. Ou sobre o amor em caixas.

sexta-feira, setembro 16, 2011 00:23

E eu ando vendo uns filmes bestas, sabe? Daqueles que a gente sabe o final, porque sempre é o mesmo final? E que não acrescenta absolutamente nada na vida além de projeções e suspiros banais... Mas é que eles distraem. E até que fazem pensar.
Não foi só o filme. Dia desses, conversando com o amigo sobre o relacionamento dele, eu disse: "Espero que ela mude, né?". No dia seguinte, quem mudou completamente de ideia foi eu. Por que fazemos tantas cobranças, meu Deus? Eu coloco a culpa em Hollywood. E em todos os filmes bobos que eu faço questão de gastar meu tempo assistindo.
O que diabos constitui esse ideal que eu procuro?

Não adianta. A dinâmica da vida é independente e não dá pra lutar contra isso. Nem o Clark Kent consegue. Pode ser que o amor da minha vida não chegue no tempo que eu quero. Pode ser que ela se perca de mim no caminho milhares de vezes e bata na porta errada. E quando ela resolver aparecer, pode ser que ela não goste de sorvete de goiaba e deteste suco de abacaxi com hortelã. E eu adoro suco de abacaxi com hortelã. E se a visão política for contrária? E se divergirmos na escolha da cor para parede? E se o signo dela for o meu inferno astral? E se? (...) As menores diferenças podem provocar discussões inacabáveis. Discussões que acabem distante de onde começaram. Discussões que me façam acreditar que ela bateu na porta errada mais uma vez e que eu fui um idiota ao abrir. Como se perguntar quem é resolvesse alguma coisa...
É provável que ela esteja bem longe do idealizado. Tudo parece ter que seguir um padrãozinho monótono cheio de exigências. Que bobagem... E engraçado, todo mundo já ouviu aquela frase (que eu acho patética): "Não encontrou a certa, se divirta com as erradas" - A errada pode ser a minha. Pode ser que ela me faça pensar isso a cada amanhecer, um após o outro... Permanecendo (em mim) sempre no final da noite. Todo mundo conhece um casal que diz que de amanhã não passa, afinal de contas.
É tudo meio que como num sorteio, sabe? Numa aposta? Não dá pra experimentar ou escolher antes. E talvez esse suspense torne tudo tão mais incrível e divertido - e se não for divertido, do que é que vale mesmo? - Eu não sei.
Talvez não apareçam as flores, os bombons de licor, nem a data do aniversário de namoro decorada. Só que ramalhetes, chocolates e boa memória não adiantam de muita coisa se não houver alguém verdadeiramente disposto a receber tudo isso. Mesmo que de um jeito torto. Mesmo que seja só pra morrer de raiva depois... E fazer as pazes. Convenhamos, nada melhor do que fazer as pazes.
Vai faltar fôlego. Vai faltar paciência. Porque o universo não é muito bom em atender pedidos e as caixas podem parecer trocadas na hora da entrega, mas ele sabe organizar encontros afortunados como ninguém mais. E isso se manifesta, despretensiosamente inclusive, na internet, no telefone, no corredor da biblioteca, num dia sem perspectiva, numa festa estranha de sábado à noite. E quando menos nos damos conta, estamos lá... Vivendo com as surpresas que a vida propõe. Saboreando o que não foi pedido, mas que foi entregue assim mesmo. É o que é seu... Quer justificava melhor do que essa? E aquele amor, com a caixa que foi solicitada não veio. Oh, it's a mess. Não, não é. Inclusive, não me parece inteligente fazer disso um motivo para... Nada.

Existe a possibilidade de jogar fora, de desprezar, de reclamar, de dar de presente para outrem. Só que a vida não funciona como os correios e todos os seus protocolos. (Amém.)

Não existe amor fabricado em série. Não existem pré-requisitos para amar. Não existem.